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A Taxonomia dos Gestores

Imagem disponível em: <https://www.ibccoaching.com.br/portal/rh-gestao-pessoas/qual-significado-conceito-gestor/>

Antes de montar minha empresa, com minha sócia, passei anos trabalhando em uma multinacional brasileira. Com o meu perfil de professor universitário de cunho pesquisador, infelizmente, eu passei anos também observando e catalogando o perfil de gestores que conheci e que convivi, tanto acima do meu cargo como abaixo dele.

Resolvi montar aqui uma “bem-humorada” (porém sem o humor verdadeiro) TAXONOMIA DE GESTORES, baseada puramente em observações pessoais. Todas as observações foram baseadas em histórias, e as histórias que foram baseadas nessas observações não possuem NENHUM amparo científico, além de não ter a pretensão de ser uma taxonomia séria.

Enquanto escrevia, percebi que os relatos deveriam possuir um caráter unissex, porém, foi escrito em gênero masculino. Na minha cabeça, fui pensando em exemplos e fui relatando comportamentos e, salvo um único exemplo em toda a minha carreira, nunca trabalhei com uma executiva mulher. Isso diz muito sobre nosso ambiente de gestão.

Bom, vamos lá, o primeiro que pensei foi o GESTOR ANOS 80. Esse tipo de gestor é testosterona pura. Ele grita o que quer. Quer para ontem. Acha que pode humilhar a todos, pois ele é o alfa do grupo. Tem medo de ser substituído. Vive a base de muletas sociais, como happy hours e outras coisitas más… Na maioria das vezes, ele cresceu com a empresa e não necessariamente estudou para estar nesse cargo. Mas se estudou, provavelmente, ele foi “obrigado” e apenas para subir na hierarquia do grupo. É um tipo em extinção, mas que atualmente têm se proliferado como uma forma de autoafirmação de uma era.

Tem utilidade quando existe um ambiente totalmente desorganizado, pois, geralmente a organização é o único bom quesito intelectual dele. Conhece os manuais, mas nada que saia deles pode ser aceito. É um excelente chefe! Dificilmente será um líder. Costuma botar ordem em tudo, da copa à sala da presidência. Dependendo do perfil, atua bem quando pressionado, porém, sempre vai repassar essa pressão em dobro para a equipe. Equipe essa que ele conduz como um sargento, aos gritos. É sempre assertivo em decisões, por piores que elas sejam e, se elas forem realmente ruins, alguém será demitido.

Ele é absolutamente previsível e inflexível em suas opiniões, isto é, todos já sabem suas decisões muito antes de pensarem em pedir sua ajuda. Isso pode ser bom. Ele não atua bem em situações que exijam criatividade ou desenvoltura, afinal, não sabe como proceder se não tiver sido previsto. Ele vai ter alguns processos de assédio moral e, provavelmente de assédio sexual também, porque faz parte do pacote ser machista, homofóbico, transfóbico, irritadiço, alterado, infantil, agressivo enfim… quem não concordar, pode assinar a demissão no RH. Ele não gerencia conflitos na equipe, ele é o conflito. Ninguém pode tomar nenhuma decisão se não passar por ele e, frequentemente repete o mantra de que “sem ele, ninguém faz nada”.

Outro perfil, que evoluiu do Anos 80, é o THE NEW OLD FASHIONED. Ele foi aquela testosterona pura dos anos 80, porém teve inteligência emocional para perceber que o mundo mudou. Ele está o tempo todo se queixando de como o mundo está diferente e, provavelmente mais chato. Tenta parecer descolado, mas pede respeito se o assunto for comportamento pessoal na empresa. Não entende aqueles pufes, apesar de “até gostar deles”. Toma decisões, geralmente, tentando mimetizar quem esta acima dele. É quase um “secretário de ordens” do chefe dele. Na maioria das vezes, ele não tem a idade que sua roupa mostra e não consegue esconder que não se sente a vontade nela.

Seu perfil de síndico, pode colocar ordem na casa. As vezes consegue a simpatia da equipe e, as vezes sabe o que fazer com ela. Pode se revelar um bom líder, caso dê sorte de sua equipe gostar dele. Ele é a evolução dos anos 80, porém não tão bem-acabada. É um meio termo, que por vezes pode pender para o bom ou, por vezes, pender para o ruim.

Ele não se enxerga no lugar em que está. É um inconformado e pode ser um péssimo líder para a equipe, trazendo todos para esse lado mais negativo de convivência.

Tem o DESCOLADO DAQUELA RUA FAMOSA DE SÃO PAULO. Ele fala muito e muito bem. Quando ele começa a contar uma história, todos param para ouvir. Seus feitos são heroicos e salvaram centenas de famílias da pobreza extrema. Ele conhece, ou diz conhecer, quase todos os donos das maiores empresas do Brasil e, por vezes do mundo. Jantou na casa da família de todas elas. Em seu celular, troca mensagens com deputados e políticos do maior escalão possível. Tem um carro grande, caro, brilhante, gastador que ele diz não lembrar quanto pagou e que vive mais no posto de gasolina do que na garagem. Acha bonitinha essa história de inovação, mas não cogita a hipótese de vender o carrão para andar de Uber, isso não é para ele. Tem todos os dispositivos da maçã, mas é o filho que tem a senha da sua conta, não sabe bem como usar isso daí. Diz não se importar com luxo, mas em suas histórias, as palavras perrengue e grana, nunca estão na mesma frase.

Como ele gasta muito tempo relatando sua vida em cafés, eventos descolados, salas de embarque (GRU/BSB), é possível que ele realmente tenha um par de contatos bons. Aqueles que ele não tem já, consegue rápido com um amigo, ou provavelmente naquela conta do LinkedIn que ele paga todo ano. Quando questionado sobre sua competência, vai trazer um exemplo na ponta da língua descrevendo Steve Jobs ou Bill Gates como exemplo de incompreensão de seus atos, se igualando a eles em suas genialidades, isso pode convencer os mais jovens e/ou incautos. Ele pode não ser o melhor líder para uma equipe, mas vai ser o mais lindo e descolado e, dependendo das circunstâncias, isso pode ser útil (se usado com parcimônia e cuidado).

Totalmente indiferente quando pressionado, em situações como essa ele vai trazer uma história de quando ele resolveu um problema similar no último instante. Mas, naquele momento a equipe era diferente, ou o governo era outro, ou o país, o a moeda, enfim… naquele momento ele resolveu tudo em um piscar de olhos. Se a equipe travar em alguma tarefa, não fez nada diferente daquilo que ele tinha imaginado que iria acontecer, pois a culpa é deles ou do RH. Quando toma uma decisão, ela é ambígua o suficiente para lhe dar os louros ou fazê-lo escapar da culpa. Para demitir alguém, ele conta a história de superação da família e garante para todo mundo que, quando demite um colaborador, ele chega até a “agradecer pela oportunidade de tentar novos rumos” (isso nunca foi confirmado, é claro). Quando algo novo aparece em sua frente para que ele resolva, abre o google e digita sempre “inovando em …”. No fundo, é um garoto inseguro tentando se afirmar no grupo.

O PÓS EM HARVARD, ele fala um dialeto diferente, meio em português mas muito em inglês. Usa roupas descoladas, tem toda a coleção da apple, e se alguém liga para ele falando em inglês, é a deixa para mostrar seu accent aos gritos. Ele provavelmente fez um estágio não remunerado em uma filial do google e um curso EAD gratuito no site da Harvard, mas quando ele fala da sua “experience com o pipe de inovation da west coast” parece que a qualquer momento ele vai atender o Mark Zukenberg no seu mobile (o pior é quando ele atende mesmo!). Ele sempre se queixa de como o Brasil é atrasado, lento, estagnado, conservador, mas no fundo ele não troca esse país por nenhum outro lugar no mundo.

Os contatos nem sempre são tão bons quanto ele diz, mas, as vezes podem ser até melhores. Se a equipe e seus chefes tiverem paciência, ele pode virar um líder excepcional, pelo menos enquanto conseguir encantar a todos. Ele geralmente defende sua equipe, pois não acredita muito nisso de hierarquia. Costuma motivá-los em busca do seu melhor, sempre com histórias maravilhosas. Repassa a responsabilidade de tomadas de decisão para o grupo e assume os méritos do sucesso com eles. Normalmente, é muito criativo e gosta de novos desafios.

Ele tem que comprovar, constantemente, suas histórias e isso gasta tempo e energia. Acaba enjoando fácil dos projetos e, por vezes, tem mais projetos inacabados do que sucessos lançados (como diz). Não costuma culpar sua equipe, mas, se algo der errado a culpa vai ser de alguém muito acima de todos: o país, o bairro, a infra da América Latina, os sindicatos, a CLT, enfim… alguém intangível e inalcançável. Ele acha que vale muito mais do que dá para ler em sua etiqueta e costuma pular muito de empresa em empresa, embora diz vestir a camisa de todas.

O ESTUDADO, ele se formou na melhor universidade do país, fez a melhor pós de todas, terminou seu mestrado com louvor e até doutorado fez! E aí, dez anos depois, começou a trabalhar. Sempre capaz de citar um autor, um artigo, um case que corresponda ao que está acontecendo na reunião. Ele tem sempre as melhores soluções e, são tão obvias, que ele chega a ter preguiça de falar. Parece extremamente arrogante, pois tudo é tão simples e tão claro e, às vezes, é mesmo. Extremamente arrogante, tem tiradas para tudo. Os resultados dos estudos nem sempre são comprovados na realidade dos fatos e, pode colocá-lo em situações delicadas. Quando ele consegue organizar uma equipe que complemente seu estudo teórico e, além disso, ele tenha a humildade de escutá-los, pode se tornar o melhor líder de uma equipe e produzir resultados maravilhosos. Ou também, pode simplesmente acabar sendo descartado por todos, acima e abaixo dele.

Ele pode não saber de tudo, mas ele sabe onde achar a resposta para tudo. Costuma defender sua equipe, assim como defenderia seus alunos em uma universidade. Não gosta de demitir ninguém (o que por vezes não é um ponto forte) porque sempre acredita que as pessoas podem evoluir e melhorar. Quando sua equipe é bem formada e entende isso, ela pode realmente vir a ser a melhor equipe da empresa. Se ele adotar o objetivo de gestão de pessoas, vai tornar as relações interpessoais as melhores possíveis, porém, se ele não achar isso importante, ele não irá tomar conhecimento de alguma briga. Costuma ser bem criativo e enfrentar desafios de forma extremamente objetiva, organizada em mapas mentais, cronogramas de Gantt e metodologias muito bem explicadas e diagramadas para a situação.

Por vezes, quando pressionado se torna indiferente ao problema e acaba recorrendo aos seus títulos e diplomas para demonstrar que ele esta muito acima de tudo isso dai. Não costuma aceitar que “alguém diz não conseguir” entregar algo em um prazo inumano, pois afinal ele conseguiu escrever um livro em 15 dias ou ler 1000 páginas em esperanto arcaico em uma das disciplinas que o Philip Kotler ministrou para os 5 melhores alunos do sul do mundo, em 2015. Suas reuniões costumam virar um monólogo, com ementa, objetivo pedagógico, alguns slides, um trabalho valendo nota em grupo e chamada no final. Ele pode tomar uma decisão “rápida”, mas nunca rápida o suficiente para parecer por impulso. Todas as tomadas de decisão serão estudadas, avaliadas, repensadas, estudadas novamente, aplicadas em uma avaliação SWOT e em modelos de predição. Pode ser que as reuniões evoluam para comitês e comissões, e todos sabem que elas são a melhor maneira de se ignorar a necessidade de se encontrar uma solução.

Enfim…

Continuo catalogando minha taxonomia de gestores, da forma mais bem humorada possível. Claro que, visivelmente uma “classe” não anula a outra, pois muito dos gestores estão em mais de uma ao mesmo tempo e é isso que torna esse “trabalho” divertido.

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